segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A internet e seu futuro "sombrio"

Prometeu Acorrentado (pintura de Dirck van Baburen - 1595-1624). Foto: Reprodução da Internet

Um relatório divulgado recentemente pelo Pew Research Center traça um futuro "sombrio" para a internet.  Matéria produzida pelo The New York Times e publicada no Brasil pela Folha de S. Paulo (22/07/14) mostra que o terceiro volume da série "A Vida Digital em 2025", o relatório "Ameaças à Rede", traz especialistas falando em "novas violações das liberdades on-line por governos"; "monitoramento e uma queda da confiança"; e um "'esmagamento' da criatividade individual por causa do controle de grandes companhias".

No estudo, foram ouvidos 1.400 pensadores de tecnologia. O detalhe é que as entrevistas foram realizadas entre novembro de 2013 e janeiro de 2014, era pós-Snowden. É possível que o clima provocado pelas revelações de espionagem da NSA contra cidadãos comuns tenha contaminado a resposta dos especialistas.

Para se ter uma ideia, a palavra "ameaça" apareceu 75 vezes.

O fato é que, tanto na sociologia quanto na filosofia da técnica, a literatura está repleta de visões catastrofistas sobre a tecnologia e, por tabela, sobre a internet. Jacques Ellul, Paul Virilio, Jean Baudrillard... Todos veem a tecnologia como dominação, perda de autonomia, alienação. Seria o lado obscuro da ciência enquanto tecnologia - a técnica como fim, não como meio - que termina causando inúmeros problemas econômicos e sociais.

Na história do pensamento, as tradições fáustica e prometeica vão bem mais longe, como explica Hermínio Martins:

"a tradição Prometeica liga o domínio técnico da natureza a fins humanos e sobretudo ao bem humano, à emancipação da espécie inteira e, em particular, das “classes mais numerosas e pobres” (na formulação Saint-Simoniana). A tradição Fáustica esforça-se por desmascarar os argumentos Prometeicos, quer subscrevendo, quer procurando ultrapassar (sem solução clara e inequívoca) o niilismo tecnológico, condição pela qual a técnica não serve qualquer objetivo humano para além da sua própria expressão" (MARTINS, 1997, p. 290).

Tenho me esforçado para acreditar no lado bom, positivo da técnica. Como sinônimo de emancipação, de liberdade... Porém, confesso: não tem sido fácil...

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O futuro do jornal impresso :-P

Foto: Reprodução da Internet/www.bluebus.com.br

Muitos têm se perguntado sobre o futuro do jornal impresso diário. Com tanta informação disponível em tempo real e gratuitamente na internet, imaginava-se que o jornal, coitado, estaria chegando ao fim.

Nunca concordei com esta tese. Sempre achei que o jornal teria que se reinventar - mas ninguém, até agora, tinha achado a fórmula. Ou até testaram algumas fórmulas sem muito sucesso.

Matérias mais profundas, analíticas, radicalmente mais substanciais que o hard news? Sim, mas os jornais até agora não têm dado espaço a matérias assim. Papel é caro, e matérias profundas necessitam de muito espaço, basta observarmos os veículos especializados (Valor Econômico, a finada Gazeta Mercantil etc.). Sabemos que, ao menos na imprensa diária local, as páginas sem anúncio (as chamadas "páginas limpas") são cada vez mais raras.

Linguagem de revista? Sim, mas as revistas continuarão existindo e sempre terão qualidade infinitamente superior. Inclusive jornalisticamente, porque suas equipes estão focadas em produzir aquele tipo de produto cuja periodicidade é semanal, mensal, bimestral etc.

Enfim, as apostas vêm sendo feitas. Mas hoje li uma notícia no BlueBus sobre a possibilidade de, no futuro, termos jornais como o Profeta Diário da saga Harry Potter, nos quais as fotos têm vida.

"Um projeto chamado ‘Interactive Newsprint’, da companhia britânica Novalia, em parceria com as universidades de Central Lancashire, Dundee e Surrey, está tentando conectar os jornais de papel à internet. A ideia é que eles tenham botoes impressos que, quando pressionados, tocam o áudio das notícias, por exemplo, além do botao ‘Like’ do Facebook – você curte no impresso e a história é compartilhada na rede social."

Fiquei animada! Se toca áudio, também pode ser capaz de tocar vídeo. Que venha logo essa inovação.

Outra notícia que li hoje sobre mídia em geral foi na Rolling Stone. O Skype está lançando uma nova ferramenta de tradução simultânea. Parece que passou no teste, pois o site traz um vídeo com uma pessoa falando alemão e outra inglês, e aparentemente elas se entendem.

Agora só falta inventarem o chip de Neuromancer (o romance de William Gibson que inspirou a série cinematográfica Matrix), que colocado sob a pele nos habilita a falar vários idiomas. Simples assim. É só plugar.

A conferir!


domingo, 1 de dezembro de 2013

#instapatologia

Fonte: Jornal do Commercio (28/11/13)

Duas adolescentes de 16 anos, uma do Rio Grande do Sul e outra do Piauí, tiraram as próprias vidas após o compartilhamento de imagens e vídeos sensuais em aplicativos para smartphones.

Na quarta-feira (27/11/13), uma jovem de 19 anos morreu depois de bater com o carro em São Paulo. Dirigia em alta velocidade. Minutos antes de morrer, tirou uma foto do velocímetro, que marcava 180 km/h, e postou no Instagram.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

PNAD: De 2005 para 2011, número de internautas cresce 143,8% e o de pessoas com celular, 107,2%

Entre 2005 e 2011, a população de 10 anos ou mais de idade cresceu 9,7%, enquanto que o contingente de pessoas nessa faixa etária que utilizaram a internet aumentou 143,8% e o das que tinham telefone móvel celular para uso pessoal cresceu 107,2%. É o que mostram os resultados do suplemento “Acesso à internet e Posse de Telefone Móvel Celular para Uso Pessoal” da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2011.
Em 2011, 77,7 milhões de pessoas com 10 anos ou mais de idade (46,5% do total) haviam acessado a internet nos três meses anteriores à coleta da PNAD. O acesso à internet continuava sendo maior entre os jovens, especialmente nos grupos etários de 15 a 17 anos (74,1%) e de 18 ou 19 anos de idade (71,8%).
Na análise da escolaridade dos internautas, observou-se que, de 2005 para 2011, no grupo dos sem instrução e com menos de quatro anos de estudo, o percentual passou de 2,5% para 11,8%. No mesmo período, no grupo com 15 ou mais anos de estudo, a estimativa aumentou de 76,1% para 90,2%.
Na série histórica, os percentuais de internautas aumentaram em todas as classes de rendimento mensal domiciliar per capita, especialmente nas mais baixas: no grupo sem rendimento e com até ¼ de salário mínimo, o percentual de pessoas que acessaram a internet aumentou de 3,8% em 2005 para 21,4% em 2011; no grupo de mais de ¼ até metade do salário mínimo, ele foi de 7,8% para 30%, no grupo de ½ a um salário, de 15,8% para 39,5%. Em todos os anos pesquisados, o percentual de internautas foi maior na classe de rendimento de três a cinco salários mínimos, ultrapassando, inclusive, a classe de cinco ou mais salários mínimos.
Em 2011, 115,4 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade (69,1%) tinham telefone móvel celular para uso pessoal (contra 55,7 milhões, ou 36,6% do total nessa faixa etária, em 2005).
O percentual de mulheres que tinham telefone móvel celular para uso pessoal ultrapassou o de homens pela primeira vez em 2011: 69,5% das mulheres (60,3 milhões) tinham o aparelho, contra 68,7% dos homens (55,2 milhões).
Todos os resultados do suplemento da PNAD 2011 de “Acesso à internet e Posse de Telefone Móvel Celular para Uso Pessoal” podem ser acessados no link http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet2011/default.shtm

Em 2011, 46,5% das pessoas de 10 anos ou mais de idade acessaram a internet

De 2005 para 2011, o contingente de pessoas que usaram a internet ao menos uma vez nos três meses anteriores à coleta da PNAD (que ocorreu no último trimestre de 2011) aumentou 143,8%, ou seja, em seis anos o número de internautas no país cresceu 45,8 milhões, chegando a 77,7 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade (46,5% do total) em 2011. Em 2009, o número de internautas foi estimado em 67,7 milhões, representando 41,6% da população alvo. Nos anos de 2008 e 2005, estes totais foram estimados em 55,7 milhões (34,7% dessa população) e 31,9 milhões (20,9%), respectivamente.
Em 2011, mais de um terço população de 10 anos ou mais de idade das regiões Norte e Nordeste havia acessado a internet, ante pouco mais de um décimo em 2005. Em 2011, mais da metade da população do Sudeste (54,2%), do Centro-Oeste (53,1%) e do Sul (50,1%) tinham acessado a internet, contra 26,2%, 23,4% e 25,5% em 2005, respectivamente. Entre as unidades da Federação, os maiores percentuais de acessos foram registrados no Distrito Federal (71,1%), São Paulo (59,5%) e Rio de Janeiro (54,4%) e os menores no Maranhão (24,1%), Piauí (24,2%) e Pará (30,7%).


Percentual de internautas ainda é maior entre jovens
Em 2011, o acesso à internet continuou sendo maior entre os jovens: os grupos etários de 15 a 17 anos (74,1%) e de 18 ou 19 anos de idade (71,8%) já tinham sido apontados, nos anos anteriores da pesquisa, com os maiores percentuais de pessoas que acessaram a rede. De 2005 para 2008, o aumento da proporção de pessoas que acessaram a internet foi maior nos grupos com idades de 10 a 24 anos. Já de 2008 para 2011, o maior aumento se deu nos grupos etários de 25 a 39 anos de idade. Destaca-se também o aumento do percentual de pessoas de 50 anos ou mais de idade que acessavam a internet, de 7,3%, em 2005, para 18,4%, em 2011.

Acesso à internet chegou a 90,2% entre pessoas com 15 ou mais anos de estudo
Na análise da escolaridade dos internautas, observou-se que, de 2005 para 2011, no grupo dos sem instrução e com menos de quatro anos de estudo, o percentual passou de 2,5% para 11,8%. No mesmo período, no grupo com 15 ou mais anos de estudo, a estimativa aumentou de 76,1% para 90,2%.
A participação dos estudantes entre os que usaram a internet no período pesquisado diminuiu de 43,4% em 2005 para 35,1% em 2011. A redução é explicada, principalmente, por dois fatores: maior aumento de usuários entre os não estudantes (aumento de 179,7%); e queda de 3,2% observada no contingente total de estudantes – devido ao envelhecimento da população. Em 2011, do contingente de 37,5 milhões de estudantes com 10 anos ou mais de idade, 72,6% acessaram a internet, mais que o dobro do observado em 2005 (35,7%). O total de estudantes internautas aumentou em 13,4 milhões, ou seja, 97,1%. Entre os não-estudantes, os que acessaram a internet representavam 38,9% em 2011 e 15,9% em 2005.
Em 2011, dos 29,2 milhões de estudantes da rede pública, 19,2 milhões (65,8%) usaram a internet. Já entre os 8,4 milhões de estudantes da rede privada, 8,1 milhões (96,2%) usaram a internet. Em 2005, 24,1% dos estudantes da rede pública e 82,4% da rede privada utilizaram a internet.

Participação da população não ocupada no acesso à internet aumentou
Em 2011, das 77,7 milhões de pessoas que utilizaram a internet, 60,1% (46,7 milhões) trabalhavam e 39,9% (31,0 milhões), não trabalhavam. A comparação com 2005, quando das pessoas que acessaram a internet, 62,1% (19,8 milhões) estavam ocupadas e 37,9% (12,1 milhões) não estavam ocupadas, mostrou avanço da participação dos não ocupados entre aqueles que acessaram a internet. Em 2011, 89,3 milhões de pessoas não utilizaram a internet, 25,8% a menos que em 2005. A maior redução, de 30,2%, aconteceu entre os ocupados, contra uma redução de 20,3% dos não ocupados.
Em 2011, cerca de metade dos 93,5 milhões de trabalhadores (49,9% ou 46,7 milhões) utilizou a internet. Em 2005, esse percentual era de 22,8% (19,8 milhões).
A participação das pessoas não ocupadas que utilizaram a internet sofreu elevação significativa de 2005 para 2011: 18,4% em 2005 (12,1 milhões) para 42,2% (31,0 milhões) em 2011.

Proporção de internautas aumentou mais nas classes de rendimento mais baixo
A análise do perfil dos internautas por classe de rendimento mensal domiciliar per capita mostrou que o acesso à internet aumenta com a renda. Na série histórica, os percentuais de internautas aumentaram em todas as classes, especialmente nas de rendimento mais baixo: no grupo sem rendimento e com até ¼ de salário mínimo, o percentual de pessoas que acessaram a internet cresceu de 3,8% em 2005 para 21,4% em 2011; no grupo de mais de ¼ até metade do salário mínimo, ele foi de 7,8% para 30%, no grupo de ½ a um salário, de 15,8% para 39,5%. Observou-se, também, que, em todos os anos pesquisados, o percentual de internautas foi maior na classe de rendimento de três a cinco salários mínimos, ultrapassando, inclusive, a classe de cinco ou mais salários mínimos.


Contingente de pessoas com telefone celular no Nordeste cresceu 174,3% em seis anos
Enquanto a população de 10 anos ou mais de idade aumentou 9,7% entre 2005 e 2011, passando de 152,3 milhões de pessoas para 167,0 milhões, o contingente de pessoas de 10 anos ou mais de idade que tinham telefone móvel celular para uso pessoal aumentou de 55,7 milhões de pessoas com aparelhos (36,6%) em 2005 para 115,4 milhões (69,1%), indicando aumento de 107,2%.
Entre as regiões, três apresentaram aumento do contingente de pessoas que tinham telefone móvel celular menor que 100,0%: no Sul, 66,7% (7,1 milhões de pessoas); no Centro-Oeste, 88,1% (4,6 milhões) e no Sudeste, 95,8% (25,8 milhões). Já o Nordeste registrou crescimento de 174,3%, no contingente de pessoas que tinham telefone móvel celular no mesmo período (17,2 milhões) – o maior aumento dentre todas as grandes regiões -, seguida do Norte, com um crescimento de 166,7% (5,0 milhões).
Em 2011, o Distrito Federal (87,1%), o Rio Grande do Sul (76,9%) e Goiás (77,7%) apresentaram os maiores percentuais de pessoas que tinham telefone móvel celular entre a população de 10 anos ou mais de idade. Por outro lado, o Maranhão (45,2%), o Piauí (52,2%) e o Pará (57,2%) apresentaram os menores.

Percentual de mulheres com celular ultrapassou o dos homens
Em comparação com as estimativas de 2005, 2008 e 2009, o percentual de mulheres que tinham telefone móvel celular para uso pessoal ultrapassou o de homens pela primeira vez em 2011: 68,7% (55,2 milhões) e 69,5% (60,3 milhões), respectivamente para homens e mulheres. Em 2005, a estimativa em relação ao total da população havia sido de 36,9%, sendo de 38,0% para os homens e de 35,2% para as mulheres.

Proporção de pessoas com celular é maior na faixa de 30 a 34 anos de idade
Na análise etária, o percentual de detentores de aparelho móvel celular para uso pessoal crescia com o aumento da idade, partindo de 41,9%, na faixa de 10 a 14 anos de idade, e atingindo 83,2% no grupo 30 a 34 anos. A partir daqueles de 35 anos ou mais, notou-se decréscimo das proporções, chegando a 43,9% no grupo de pessoas de 60 anos ou mais. Contudo, foi nos grupos de 35 a 39 anos e de 40 a 44 anos que houve o maior ganho de participação, em torno de 37,0 pontos percentuais em seis anos.

Posse de telefone celular aumenta com a escolaridade
A investigação da posse do telefone móvel celular em função da escolaridade mostrou que o percentual de pessoas com aparelho aumentava com o nível de instrução, indo de 36,6% da população sem instrução e com menos de um ano de estudo até 94,7% da população com 15 ou mais anos de estudo. A relação se repetiu em todas as regiões do país; destaca-se que o Centro-Oeste teve a maior proporção de pessoas sem instrução e com menos de um ano de estudo que tinham telefone móvel celular: 52,2%.

89,8% das pessoas com rendimento entre 3 e 5 salários mínimos têm celular
O percentual de pessoas com posse de celular aumentou com as classes de rendimento mensal domiciliar per capita do grupo sem rendimento e com até ¼ de salário mínimo até o grupo de três a cinco salários mínimos. Em 2011, 41,0% das pessoas sem rendimento e com até ¼ de salário mínimo tinham celular, assim como 89,8% das pessoas com entre três e cinco salários mínimos e 82,7% das pessoas com rendimento acima de cinco salários mínimos.

Fonte: IBGE/Comunicação Social
Publicado em www.ibge.gov.br

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Projeto 'vago' deu origem à internet


JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA - O Estado de S.Paulo
Na capa de um documento que parecia ser mais um projeto mirabolante de um pesquisador com muito tempo livre, pode-se ler até hoje um comentário escrito à mão por um dos coordenadores daquele departamento: "vago, mas excitante". O que seguia naquelas páginas era nada mais, nada menos do que a criação da internet.
Na semana passada, os cientistas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) em Genebra comemoraram 20 anos da decisão da instituição de suspender a patente da tecnologia do software da web e tornar a internet acessível para todos. O resultado foi uma das maiores revoluções na história da humanidade.
Hoje, se a internet fosse uma economia independente, teria o tamanho do Canadá ou da Espanha. Só nos EUA, movimenta por ano US$ 175 bilhões e emprega aproximadamente 2 milhões de trabalhadores.
De compras de supermercado, viagens, controlar contas em bancos, estudar ou até mesmo acompanhar uma partida de futebol no outro lado do mundo. Tudo tem passado pela internet. O sistema criado nas salas do Cern já atinge aproximadamente 2,7 bilhões de pessoas em todo o mundo. Quase metade dos internautas tem menos de 25 anos, praticamente a mesma idade da web.
Mas pesquisadores são unânimes em apontar que, se não fosse pela decisão dos cientistas de abrir mão da patente do produto, essa explosão poderia não ter ocorrido com a mesma velocidade. Em 30 de abril de 1993, o Cern publicou um comunicado alertando ao mundo que a tecnologia sobre a então obscura World Wide Web estaria disponível a qualquer pesquisador, sem a cobrança de royalties e de patentes. Dias depois da publicação, esse documento circularia entre os cientistas e seria o início da internet livre e aberta.
O físico inglês Tim Berners-Lee foi quem inventou o sistema em 1989. Seu objetivo principal era permitir que pesquisadores pudessem compartilhar informações.
Foi também de Berners-Lee que surgiu o primeiro site, algo que hoje poderia ser considerado como uma espécie de Bíblia de Gutenberg. Tratava-se de algo básico: uma página que descrevia o que era a rede, como acessar os documentos colocados por outras pessoas e como criar seu próprio servidor.
Para isso, o pesquisador usou seu próprio computador, um NeXT, como servidor. A máquina é ainda guardada no Cern como uma relíquia histórica. O problema é que o endereço onde estava o primeiro site acabou sendo perdido e, agora, pesquisadores se lançam em uma batalha para restabelecer o primeiro site e preservar seus ativos digitais.
"Não há nenhum setor na sociedade que não foi transformado por essa invenção realizada em um laboratório de física", declarou o diretor do Cern, Rolf Heuer. "Da pesquisa aos negócios, passando pela educação, a web redesenhou a forma pela qual nos comunicamos, trabalhamos, inovamos e vivemos", disse. "A web é um exemplo poderoso de como a pesquisa de base é benéfica para a humanidade", completou.
A proposta de Berners-Lee foi escrita em março de 1989 e tinha como função ajudar físicos e engenheiros do Cern a compartilhar dados sobre experimentos que realizavam. Em sua explicação, ele alertava que "o que se necessitava era um pool de informações que poderiam crescer e desenvolver com a organização".
Seu supervisor na época, Mike Sendall, deu sinal verde para que o projeto recebesse recursos. Mas não escondia uma certa dúvida sobre a capacidade da ideia em prosperar.
Começo. O início mostrou-se difícil. O engenheiro belga Robert Cailliau se aliou ao projeto e percorreu o mundo em busca de recursos. Nos anos que se seguiram, estudantes foram contratados para ajudar na divisão que trabalhava para aperfeiçoar o sistema. Mas todos tinham apenas contratos temporários.
Em 1991, os primeiros testes reais finalmente começaram a dar resultados, com browsers que permitiam que qualquer pessoa de qualquer lugar pudesse ter acesso à rede. Dois anos depois veio a decisão de permitir que o software tivesse sua distribuição livre, sem taxas e nem patentes. Desde então, frear o sistema passou a ser uma tarefa impossível, até mesmo para os regimes mais duros.
"A internet é o que está mudando Cuba hoje", declarou a blogueira Yoani Sanchez ao Estado na semana passada. "Tudo o que o governo nos proíbe de ter e fazer conseguimos pela web", disse.
Crescimento. Aquele mesmo ano de 1993 terminou já com a existência de 500 servidores. Hoje, são 630 milhões de websites que estão online. Entre 1994 e 2010, a média do crescimento do tráfego de dados na web foi de 140% ao ano, de acordo com um levantamento realizado pela União Internacional de Telecomunicações.
Nem a agência internacional que foi criada para harmonizar outra tecnologia - o telégrafo - consegue manter um acompanhamento da expansão. Em 20 anos, o tráfego da rede aumentou em 44 mil vezes. No total, o que circulou ao final de 2012 exigiria 200 mil anos de uma conexão discada de internet, como em 1993, para ser transmitida.
O crescimento só ganha em intensidade. Por mês, 2013 verá uma expansão no volume equivalente ao tráfego global acumulado entre 1994 e 2003.

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 12/05/12.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Conectado no trabalho

Acessar as mídias sociais durante o expediente ajuda o trabalhador, diz pesquisa feita na Europa

Da Redação

Canais de comunicação online como Facebook, Twitter e Linked In ajudam ou atrapalham na hora do trabalho? Uma pesquisa recente publicada pela Warwick Business School, no Reino Unido, mostra que os dispositivos digitais e mídias sociais, na verdade, ajudam as pessoas durante o expediente. Na avaliação do professor Joe Nandhakumar, responsável pelo levantamento, a pesquisa derruba a ideia defendida por alguns críticos e empresas de que estar conectado a uma infinidade de coisas afeta a concentração e a capacidade de analisar detalhes.

O estudo foi desenvolvido tendo por base companhias líderes de tecnologia no Reino Unido, Finlândia e Alemanha. Segundo a publicação, a onipresença da conectividade digital altera o senso de presença nos trabalhadores e ajuda mais do que atrapalha na execução de tarefas coletivas, além de acelerar o cumprimento de metas e o tempo de resposta dos funcionários a clientes.

O acadêmico, que já atuou em gigantes como Ford e Nestlé e é especializado em sistemas da informação, defende a teoria da "copresença virtual". Em outras palavras, seria a capacidade de se comunicar e colaborar com outras pessoas sem necessariamente estar no mesmo espaço geográfico. O estudo de Nandhakumar também enfatiza a questão da natureza global dos negócios modernos, em que terminamos atuando também fora das horas tidas como comuns até a década de 1990, inclusive nos conectando com pessoas de todo o mundo.

A pesquisa sugere que os trabalhadores que conseguiram lidar com o tempo e a sequência de sua "presença" e as respostas em um local de trabalho digitalmente mediado eram mais capazes de organizar o fluxo de trabalho através de meios digitais. "A quantidade de informação agora na ponta dos dedos do trabalhador de escritório moderno não deve significar que eles estão sobrecarregados, mas, sim, empoderados. Em ambientes acadêmicos, conectividade digital e interações são frequentemente vistos como um aspecto positivo do nosso trabalho e uma parte essencial de como manter a velocidade com novos conhecimentos e desenvolvimentos dentro de nosso campo", defende.

Dessa forma, a conectividade digital onipresente deve ser vista, como defende Nandhakumar, não como uma interrupção indesejada, mas como parte da natureza mutável do conhecimento do próprio trabalho e que precisa se tornar parte normal das práticas cotidianas das organizações contemporâneas. Mesmo no caso da conectividade constante proporcionada por meios digitais móveis, o estudo sugere que os trabalhadores são capazes de responder a comunicações em seu próprio tempo, permitindo um tempo de mudança de tarefas pelos participantes, não significando que eles respondem de forma passiva aos alertas das redes sociais.

BRASIL X EUROPA

O especialista em gestão de qualidade, motivação e equipes autogerenciavéis Jairo Martiniano, que tem uma carteira de 200 clientes espalhados pelo País, entre eles Nestlé, Fiat, Porto Seguro e Vitarella, alerta para o equilíbrio no uso da rede dentro das corporações. "É preciso ver que a Europa tem uma cultura diferente da nossa quando o assunto é trabalho. Ainda estamos crescendo em relação a esse vínculo pessoal-profissional. Então é comum ver pessoas que se distraem a qualquer chamado", comenta.

Hoje as empresas brasileiras estão mais abertas para o assunto, apesar de muitas ainda monitorarem o que os empregados acessam. É comum que o setor de Tecnologia da Informação tenha também a incumbência de produzir relatórios mensais auditando o que foi visto na rede pelos demais funcionários. "A questão é, sim, positiva, desde que haja maturidade nesse uso, desde que ele se torne o elemento a favor, a exemplo de pesquisa no Linked In ou compartilhamento de conteúdos úteis e construtivos no Facebook", acrescenta Martiniano.

Na opinião do europeu Nandhakumar, as empresas e organizações devem garantir que seus trabalhadores possam controlar o próprio fluxo de informações, ligar e desligar, quando necessário. Para ele, o que se deve fazer não é impedir o acesso, mas explorar como os funcionários podem ser mais bem equipados e capacitados para gerenciar seu tempo e produtividade no ambiente corporativo.

As conclusões foram tiradas depois que o professor passou mais de dois anos acompanhando numa grande empresa de telecomunicações da Europa a tentativa de implementar mídias sociais e comunicação digital nos hábitos de trabalho, a exemplo de Skype, Facebook e Twitter. O objetivo da companhia era melhorar a comunicação com os clientes. As conclusões da Warwick Business School apontaram que, ao usar as mídias e canais online, a equipe foi capaz de concluir as vendas mais rapidamente e obter mais tarefas de atendimento ao cliente.

Publicado no Jornal do Commercio em 15/04/13.

sábado, 13 de abril de 2013

Qual será o futuro das redes sociais?


Se a interação é o segredo do sucesso do Facebook, encarar a mobilidade de frente será o grande desafio das novas ferramentas

Publicado em 03/04/2013, às 07h00

Bárbara Buril

O estudante Fausto Paiva deu adeus ao Facebook e diz viver bem sem ele / Michele Souza / JC Imagem

O estudante Fausto Paiva deu adeus ao Facebook e diz viver bem sem ele

Michele Souza / JC Imagem

O Google, na web 1.0, consagrou-se por fazer o trabalho de organizar o caos informativo da internet com um mecanismo de busca funcional e clean. Na web 2.0, a interação impera e o símbolo mais destacado dela, nos tempos atuais, é o Facebook. Sem dúvida, a ferramenta consegue hoje reunir diversas funcionalidades interativas: serve para conversar, jogar, compartilhar status, agrupar fotos, assistir a vídeos e até para trabalhar, a depender do ofício.
Graças às diferentes possibilidades da rede, ela consegue atrair um total de 1 bilhão de usuários. Mas por quanto tempo esse “polvo” extremamente funcional continuará em alta? Não se sabe dizer com certeza, até porque um estudo da empresa de consultoria em mídias sociais, Social Bakers, mostrou que, nos últimos três meses, nada menos que 4,5 milhões de usuários do Facebook abandonaram o site nos EUA e no Reino Unido.
No Brasil, o número cresce, no entanto, há pessoas que deletaram o perfil na rede, como o estudante de arquitetura Fausto Paiva. Ele sentia que estava sendo bombardeado por propagandas e informações bobas. Desfocado do estudo e do trabalho “para nada”, como ele define, disse adeus à rede e diz viver muito bem sem ela. 
Hoje, Fausto conversa com os amigos por Gtalk, e-mail e celular. “Realmente, perco o contato com amigos distantes, mas os próximos eu encontro sempre”, conta o estudante, que se comportou exatamente como preveem os especialistas: buscou mobilidade e ferramentas simplificadas, que vão de encontro à oferta excessiva do Facebook
Assim, que tipo de inovação terá que desenvolver para segurar toda essa multidão de usuários mundo afora quando a comunicação estiver, por exemplo, completamente adaptada aos dispositivos móveis? Como será a rede social do futuro? A maior parte dos estudiosos ainda não tem uma resposta definida sobre isso, mas as tendências apontam que, para ter sucesso, a ferramenta que ligará indivíduos deverá nascer sob o signo da mobilidade. Segredo até então dominado pelo Instagram e o Whatsapp. 

Publicado no Jornal do Commercio em 03/04/2013.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Nunca houve tanto ódio na midia conservadora do Brasil

Lamento ter estado ausente do blog nos últimos tempos, em situações importantíssimas para o Brasil como as eleições municipais e o julgamento do mensalão. Mas achei uma forma de corrigir isso, reproduzindo abaixo o artigo de Jaime Amparo Alves publicado no site Pragmatismo Político. Concordo em gênero, núnero e grau com a ideia geral do texto, de que a grande mídia não sossegará enquanto não derrubar a presidenta Dilma Rousseff e "acabar de acabar" com o ex-presidente Lula.

Nunca houve tanto ódio na midia conservadora do Brasil

Postado em: 30 out 2012 às 0:58

Os textos de Demétrio Magnoli, Ricardo Noblat, Merval Pereira, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Catanhede, entre outros, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira

Jaime Amparo Alves*


Os brasileiros no exterior que acompanham o noticiário brasileiro pela internet têm a impressão de que o país nunca esteve tão mal. Explodem os casos de corrupção, a crise ronda a economia, a inflação está de volta, e o país vive imerso no caos moral. Isso é o que querem nos fazer crer as redações jornalísticas do eixo Rio – São Paulo. Com seus gatekeepers escolhidos a dedo, Folha de S. Paulo, Estadão, Veja e O Globo investem pesadamente no caos com duas intenções: inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e destruir a imagem pública do ex-presidente Lula da Silva. Até aí nada novo.
Foto: Demétrio Magnoli, representante do Instituto Millenium (reprodução)
Tanto Lula quanto Dilma sabem que a mídia não lhes dará trégua, embora não tenham – nem terão – a coragem de uma Cristina Kirchner de levar a cabo uma nova legislação que democratize os meios de comunicação e redistribua as verbas para o setor. Pelo contrário, a Polícia Federal segue perseguindo as rádios comunitárias e os conglomerados de mídia Globo/Veja celebram os recordes de cotas de publicidade governamentais. O PT sofre da síndrome de Estocolmo (aquela na qual o sequestrado se apaixona pelo sequestrador) e o exemplo mais emblemático disso é a posição de Marta Suplicy como colunista de um jornal cuja marca tem sido o linchamento e a inviabilização política das duas administrações petistas em São Paulo.


O que chama a atenção na nova onda conservadora é o time de intelectuais e artistas com uma retórica que amedronta. Que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso use a gramática sociológica para confundir os menos atentos já era de se esperar, como é o caso das análises de Demétrio Magnoli, especialista sênior da imprensa em todas as áreas do conhecimento. Nunca alguém assumiu com tanta maestria e com tanta desenvoltura papel tão medíocre quanto Magnoli: especialista em políticas públicas, cotas raciais, sindicalismo, movimentos sociais, comunicação, direitos humanos, política internacional… Demétrio Magnoli é o porta-voz maior do que a direita brasileira tem de pior, ainda que seus artigos não resistam a uma análise crítica.

Agora, a nova cruzada moral recebe, além dos já conhecidos defensores dos “valores civilizatórios”, nomes como Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro. A raiva com que escrevem poderia ser canalizada para causas bem mais nobres se ambos não se deixassem cativar pelo canto da sereia. Eles assumiram a construção midiática do escândalo, e do que chamam de degenerescência moral, com o fato. E, porque estão convencidos de que o país está em perigo, de que o ex-presidente Lula é a encarnação do mal, e de que o PT deve ser extinguido para que o país sobreviva, reproduzem a retórica dos conglomerados de mídia com uma ingenuidade inconcebível para quem tanto nos inspirou com sua imaginação literária.
Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro fazem parte agora daquela intelligentsia nacional que dá legitimidade científica a uma insidiosa prática jornalística que tem na Veja sua maior expressão. Para além das divergências ideológicas com o projeto político do PT – as quais eu também tenho -, o discurso político que emana dos colunistas dos jornalões paulistanos/cariocas impressiona pela brutalidade. Os mais sofisticados sugerem que a exemplo de Getúlio Vargas, o ex-presidente Lula cometa suicídio; os menos cínicos celebraram o “câncer” como a única forma de imobilizá-lo. Os leitores de tais jornais, claro, celebram seus argumentos com comentários irreproduzíveis aqui.

Quais os limites da retórica de ódio contra o ex-presidente metalúrgico? Seria o ódio contra o seu papel político, a sua condição nordestina, o lugar que ocupa no imaginário das elites? Como figuras públicas tão preparadas para a leitura social do mundo se juntam ao coro de um discurso tão cruel e tão covarde já fartamente reproduzido pelos colunistas de sempre? Se a morte biológica do inimigo político já é celebrada abertamente – e a morte simbólica ritualizada cotidianamente nos discursos desumanizadores – estaríamos inaugurando uma nova etapa no jornalismo lombrosiano?

Para além da nossa condenação aos crimes cometidos por dirigentes dos partidos políticos na era Lula, os textos de Demétrio Magnoli , Marco Antonio Villa, Ricardo Noblat , Merval Pereira, Dora Kramer, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Catanhede, além dos que agora se somam a eles, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira. Seus textos serão utilizados nas disciplinas de ontologia jornalística não apenas com o exemplos concretos da falência ética do jornalismo tal qual entendíamos até aqui, mas também como sintoma dos novos desafios para uma profissão cada vez mais dominada por uma economia da moralidade que confere legitimidade a práticas corporativas inquisitoriais vendidas como de interesse público.

O chamado “mensalão” tem recebido a projeção de uma bomba de Hiroshima não porque os barões da mídia e os seus gatekeepers estejam ultrajados em sua sensibilidade humana. Bobagem! Tamanha diligência não se viu em relação à série de assaltos à nação empreendidos no governo do presidente sociólogo! A verdade é que o “mensalão” surge como a oportunidade histórica para que se faça o que a oposição – que nas palavras de um dos colunistas da Veja “se recusa a fazer o seu papel” – não conseguiu até aqui: destruir a biografia do presidente metalúrgico, inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e reconduzir o projeto da elite ‘sudestina’ ao Palácio do Planalto.

Minha esperança ingênua e utópica é que o Partido dos Trabalhadores aprenda a lição e leve adiante as propostas de refundação do país abandonadas com o acordo tácito para uma trégua da mídia. Não haverá trégua, ainda que a nova ministra da Cultura se sinta tentada a corroborar com o lobby da Folha de S. Paulo pela lei dos direitos autorais, ou que o governo Dilma continue derramando milhões de reais nos cofres das organizações Globo e Abril via publicidade oficial. Não é o PT, o Congresso Nacional ou o governo federal que estão nas mãos da mídia.

Somos todos reféns da meia dúzia de jornais que definem o que é notícia, as práticas de corrupção que merecem ser condenadas, e, incrivelmente, quais e como devem ser julgadas pela mais alta corte de Justiça do país. Na última sessão do julgamento da ação penal 470, por exemplo, um furioso ministro-relator exigia a distribuição antecipada do voto do ministro-revisor para agilizar o trabalho da imprensa (!). O STF se transformou na nova arena midiática onde o enredo jornalístico do espetáculo da punição exemplar vai sendo sancionado.

Depois de cinco anos morando fora do país, estou menos convencido por que diabos tenho um diploma de jornalismo em minhas mãos. Por outro lado, estou mais convencido de que estou melhor informado sobre o Brasil assistindo à imprensa internacional. Foi pelas agências de notícias internacionais que informei aos meus amigos no Brasil de que a política externa do ex-presidente metalúrgico se transformou em tema padrão na cobertura jornalística por aqui. Informei-lhes que o protagonismo político do Brasil na mediação de um acordo nuclear entre Irã e Turquia recebeu atenção muito mais generosa da mídia estadunidense, ainda que boicotado na mídia nacional. Informei-lhes que acompanhei daqui o presidente analfabeto receber o título de doutor honoris causa em instituições européias, e avisei-lhes que por causa da política soberana do governo do presidente metalúrgico, ser brasileiro no exterior passou a ter uma outra conotação. O Brasil finalmente recebeu um status de respeitabilidade e o presidente nordestino projetou para o mundo nossa estratégia de uma America Latina soberana.

Meus amigos no Brasil são privados do direito à informação e continuarão a ser porque nem o governo federal nem o Congresso Nacional estão dispostos a pagar o preço por uma “reforma” em área tão estratégica e tão fundamental para o exercício da cidadania. Com 70% de aprovação popular, e com os movimentos sociais nas ruas, Lula da Silva não teve coragem de enfrentar o monstro e agora paga caro por sua covardia.Terá a Dilma coragem com aprovação semelhante, ou nossa meia dúzia de Murdochs seguirão intocáveis sob o manto da liberdade de e(i)mprensa?


* Jaime Amparo Alves é jornalista, doutor em Antropologia Social, Universidade do Texas em Austin – amparoalves@gmail.com

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O mundo adaptado de Philip Dick

Coletânea reúne todos os contos do autor de ficção científica que receberam adaptações cinematográficas


Felipe Moraes

Publicação: 08/09/2012 03:00

Coletânea reúne
todos os contos
do autor de ficção
científica que
receberam
adaptações
cinematográficas (WARNER BROS/DIVULGACÃO)

Coletânea reúne todos os contos do autor de ficção científica que receberam adaptações cinematográficas
“Uma ilusão, por mais convincente que fosse, não passava de uma ilusão”, lamenta o narrador de Lembramos para você a preço de atacado, conto em que o norte-americano Philip K. Dick, um dos escritores de ficção científica mais experimentais do século 20, conta as angústias de um homem que já não sabe mais o que é realidade e o que é invenção, fabulação, sonho ou pesadelo. Nas salas de cinema, a história está em cartaz há alguns dias com o título O vingador futuro, um remake do mesmo filme que Arnold Schwarzenegger protagonizou em 1990. Agora, todos os contos de Dick que ganharam versões cinematográficas estão reunidos num só volume, em Realidades adaptadas (Aleph).

Em outubro, a Aleph lança Fluam, minhas lágrimas, disse o policial (1974), sobre um artista que desperta num mundo absolutamente desconhecido, do qual nunca tinha ouvido falar. Ano que vem, o selo republica O homem do castelo alto (1962), Os três estigmas de Palmer Eldritch (1964), Ubik (1966) e VALIS (1978) em edições com capas de adesivos removíveis, novidade apresentada em Realidades adaptadas.

O cinema que, desde o ano da morte do ficcionista, em 1982, adapta romances e narrativas curtas de Dick em filmes nem sempre decentes — exceções sejam feitas a Blade runner (1982), Minority report (2002) e O homem duplo (2006)—, suga do espólio do norte-americano nomes, datas, cenários e algumas sugestões difusas sobre a relação do homem com sociedades futuristas hostis, friamente mediadas pela tecnologia.

MetafísicaAutor de 36 romances e cinco seleções de contos, Dick não teve o reconhecimento que merecia em vida. Por meio da ficção científica, fazia observações filosóficas, metafísicas e existenciais sobre a humanidade. Era panteísta: via o universo como mera parte de Deus. Os mundos que criou colocam mais problemas que soluções, mais caos que ordem. Sem sucesso na literatura tradicional — por isso, Vozes da rua (Rocco) ficou inédito por mais de meio século —, teve uma carreira de dificuldades financeiras e um fim de vida marcado por estranhas experiências religiosas. Em 1974, quando se recuperava da extração de um dente siso, recebeu visita de uma moça da farmácia.

Abriu a porta e se impressionou com o peixinho, símbolo do cristianismo, que ela levava numa corrente dourada pendurada no pescoço. Dick, então, foi iluminado por um raio rosa — o episódio recebeu até uma versão em quadrinhos de Robert Crumb, que pode ser facilmente achada na internet. Alucinado, paranoico, e com surtos esquizofrênicos, desenvolveu uma obsessão pela história do cristianismo, pela trajetória de Jesus Cristo e pelo império romano. Num certo momento, acreditou que o profeta Elias, do Velho Testamento, estava encarnado em seu corpo.

Várias dessas experiências estão relatadas na trilogia inacabada VALIS — uma de suas alcunhas de Deus —, e no texto não ficcional The exegesis of Philip K. Dick (A exegese de Philip K. Dick), editado ano passado, nos Estados Unidos.

Contos no cinema
1990 

O vingador do futuro
A primeira versão de Lembramos para você a preço de atacado
(1966), superior a esta em cartaz nos cinemas, traduz o escrito de Dick para a tela grande com as bizarrices visuais do diretor Paul Verhoeven. Arnold Schwarzenegger interpreta um sonhador obcecado por Marte, que descobre ser um agente secreto ao tentar comprar um pacote de memórias numa empresa especializada no assunto.

1995
Assassinos cibernéticos
Peter Weller, o RoboCop, protagoniza um suspense espacial ambientado no ano de 2078, num planeta de mineração distante da Terra. Baseado no conto Segunda variedade (1953), o filme do canadense Christian Duguay narra o descontrole de um sistema bélico de inteligência artificial, que ameaça destruir qualquer indício de vida que encontrar pela frente.

2001
Impostor
Inspirado em conto homônimo de 1953, o longa-metragem de Gary Fleder emoldura a busca por identidade de um sujeito suspeito de mentir sobre quem ele verdadeiramente é. No futuro, o planeta está em guerra com extraterrestres violentos, que não hesitam em utilizar a tecnologia de androides para reduzir planetas inimigos a pó.

2002
Minority report -  nova lei
Steven Spielberg dirige história (1956) situada em 2054, em que Washington vive em paz por conta do esquadrão Pré-crime, uma divisão da polícia que prevê delitos antes que eles aconteçam. As coisas saem do esperado quando o chefe da força policial vislumbra um assassinato que ele mesmo vai cometer, nas próximas 36 horas. Uma das melhores produções baseadas em Dick, ao lado de Blade runner (1982).

2003
O pagamentoNum de seus filmes mais fracos realizados nos Estados Unidos, o chinês John Woo adapta história publicada em 1953, sobre um engenheiro (Ben Affleck) que tem a memória apagada após realizar trabalhos para diversas corporações. Ao fim de um projeto ambicioso — 2 anos de memória em troca de uma gorda recompensa —, ele se torna alvo de uma conspiração governamental.

2007
O videnteNicolas Cage estrela, talvez, a pior adaptação de um trabalho de Dick, chefiada por Lee Tamahori. Cage é um mágico com uma habilidade incomum: consegue visualizar acontecimentos de um futuro imediato, que só ocorrerão nos próximos cinco minutos. Somente o ilusionista — no original, O homem dourado (1954) — pode frustrar plano terrorista de explodir uma bomba nuclear em Los Angeles.

2011
Os agentes do destino
Um político em ascensão (Matt Damon) e uma bailarina sonhadora (Emily Blunt) protagonizam romance impossível num futuro controlado pela chamada Equipe de ajuste, que dá nome ao conto lançado em 1954. Alguns agentes engravatados criam um mundo satisfatório ao endireitar as escolhas que as pessoas fazem, construindo de antemão um futuro sem risco de surpresas
(boas ou ruins).


Publicado no Diario de Pernambuco em 8/09/12 p. E6.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Solidão do intelectual

Pensador Zygmunt Bauman analisa em seu novo livro que somos vítimas da perversidade do mercado financeiro, que cria multidões de gastadores e/ou devedores


FELLIPE TORRES
fellipetorres.pe@dabr.com.br

Publicação: 03/08/2012 03:00 

Sociólogo Zygmunt
Bauman reflete sobre
temas atuais emIsto
não é umdiário (WHOAMI-WHOAREYOU.BLOGSPOT.COM.BR/REP. DA INTERNET)
Sociólogo Zygmunt Bauman reflete sobre temas atuais em Isto não é um diário


Característica marcante da Era da Informação, a velocidade dos acontecimentos e das consequentes mudanças de conjuntura em nível global revelou-se pedra no sapato para um dos mais profícuos e renomados pensadores da contemporaneidade. A saída para o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman, defensor ferrenho da chamada “modernidade líquida” e de seus múltiplos desdobramentos, foi refletir e dar vazão à produção dos textos em tempo real. Talvez pela inviabilidade comercial da empreitada online ou pela própria falta de interesse do autor de 86 anos em aderir à web, originou-se Isto não é um diário (Zahar, 256 páginas, R$ 39,90), que chega nesta semana às livrarias brasileiras.

Em linhas gerais, o livro coleciona breves avaliações a respeito de temas recorrentes na obra do escritor, feitas em um período de seis meses (cada texto é referente a uma data). Como ele próprio justifica nas primeiras páginas, o formato surge “não pela falta de conhecimento disponível para consumo, mas em razão de seu excesso, que desafia todas as tentativas de absorvê-lo e digeri-lo”. Quem já teve contato com outros títulos, a exemplo de Amor líquido e Mal-estar da pós-modernidade, provavelmente se surpreenda com o tom pessoal de Bauman em algumas passagens.

Ele se define como um “claustrofóbico incurável”, para em seguida reconhecer a perda do vigor com a chegada da idade, comentar a solidão enfrentada após a morte da mulher e admitir que seu “parceiro para diálogo” é o Microsoft Word.

Antes de prosseguir com aquela que seria a mais depressiva autobiografia, Zygmunt Bauman retoma o posto de tradutor do mundo contemporâneo para nos falar sobre assuntos como o processo de individualização da humanidade. “Na modernidade líquida prevalece o deus do tipo ‘faça você mesmo’. Não um deus recebido, mas inventado individualmente”. Para além do âmbito religioso, o sociólogo afirma, ainda, que nos tornamos os nossos próprios poderes Legislativos, Executivos e Judiciários.

Como contraponto a essa individualização, nos é oferecida a visão da internet como “presságio da visibilidade dos invisíveis, da audibilidade para os mudos, da ação para os incapazes de agir”. Ele aproveita para ressaltar fenômenos inerentes à vida dois-ponto-zero: “as redes de relacionamento prometiam romper os limites da sociabilidade, mas não o fizeram e não o farão”, diz, após relembrar que por definição biológica nossas relações significativas estão limitadas a 150. Se além desse número as suas contas em mídias sociais somarem outros milhares de contatos, saiba: “são meros voyeurs”.

Na visão do autor vivemos em uma sociedade confessional, onde tudo é feito para aumentar o próprio “valor de mercado” por meio do marketing pessoal na web. “As pessoas são ao mesmo tempo promotores de mercadoria e as mercadorias que promovem”.
Se os jovens são enxergados como novos mercados prestes a serem explorados, ao mesmo tempo são surpreendidos com a falta de empregos e a desvalorização dos diplomas universitários.

Diante do cenário, Zygmunt Bauman mostra grande preocupação com a falta de preparo da juventude para enfrentar um mercado em transição, que talvez já esteja na era pós-industrial. Com cautela, ele lança mão das pesquisas: o 1% mais rico dos norte-americanos não é mais formado por donos de indústrias, e sim por financistas, celebridades, designers. “Hoje, a fonte básica de riqueza e poder são conhecimento, inventividade, imaginação, capacidade de pensar e coragem para fazer de modo diferente”, sugere.

O resultado disso tudo é um planeta onde as desigualdades são cada vez mais gritantes. Neste ponto, o sociólogo surpreende ao mencionar como exemplo a ser seguido o programa Bolsa Família. “O governo brasileiro conseguiu tirar do abismo da pobreza, da insegurança e da falta de perspectivas cerca de 13 milhões de famílias, o equivalente a 50 milhões de adultos e crianças”.

Como extremo oposto ao exemplo brasileiro, Bauman relata a cruzada do governo francês nas “bambieues” (nome genérico para bairros violentos e ruas perigosas) contra o povo roma (chamados de ciganos). Em determinado momento, compara as ações do presidente Nicolas Sarkozy ao do personagem Dom Quixote na “luta contra moinhos de vento”.

Isto não é um diário traz um Zygmunt Bauman invejavelmente maduro, sem tempo a perder e disposto a compartilhar com a humanidade o seu modo de pensar. Revela sua “descoberta tardia”, - que parece ter evoluído para uma obsessão - a obra do escritor português José Saramago (falecido três meses antes de o livro começar a ser escrito).

É o registro impresso do autor polonês testemunhando em vida a concretização de seu maior objetivo enquanto sociólogo: “facilitar a compreensão e o diálogo constante entre seres humanos”.
Publicado no Diario de Pernambuco em 03/08/12, p. E6.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Campus Party Recife


Consegui realizar um sonho antigo: participar de uma Campus Party. A edição especial no Recife facilitou minha vida e lá fui eu "campusar". Na sexta (27) pela manhã a trabalho, mas no domingo (29) fui curtir um pouco do evento. Levei meu netbook, pluguei na rede e pude aproveitar todo o clima mágico que se instalou no Chevrolet Hall. Fiquei jogando, ouvindo música, baixando filmes e navegando nas redes sociais. A foto aí de cima é a visão da bancada onde eu estava. Juro que eu queria ter ficado mais, passar o dia inteiro por lá, mas infelizmente não deu.

Acabei de ler um e-mail com alguns números interessantes sobre a edição recifense da Campus. Foram cerca de 2 mil campuseiros (sendo 800) acampados), vindos de 20 estados diferentes. Pernambuco predomina com 65,2% dos participantes. Foram cerca de 180 atividades, somando mais de 200 horas de conteúdo.Total investido no evento: R$ 10 milhões. 26 patrocinadores. Percebi que todos se esforçaram muito para que tudo desse certo!

Para a cadeia de tecnologia da informação pernambucana, o evento serviu para consolidar Recife como centro produtor de conhecimento. Mário Teza, diretor-geral da Futura Networks (empresa que organiza a Campus Party no Brasil), chegou a dizer que "no estado do Vale do São Francisco nasce o novo Vale do Silício brasileiro".

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Fora de controle


Com a febre dos games, resta saber quando o prazer se transforma em vício. Há poucas pesquisas
 
Augusto já passou 48h seguidas no Master System e provou mais de 600 games (BERNARDO DANTAS/DP/D.A PRESS)
Augusto já passou 48h seguidas no Master System e provou mais de 600 games
Thiago Neres
thiagoneres.pe@dabr.com.br

Publicação: 25/07/2012 03:00
 
Enquanto você começa a ler as primeiras linhas desta reportagem, existe uma grande chance de Augusto Henrique Carvalho de Melo, 32 anos, estar sentado no sofá de sua casa, diante de um televisor e com um joystick nas mãos. Atari, Master System, Nintendinho, Mega Drive, Sega Saturn, Dream Cast, PlayStation 1, PlayStation 2, Xbox 1, Xbox 360, Nintendo 64 e Nintendo DS tornaram-se amigos inseparáveis ao longo dos anos. Mais de 600 games, no formato de cartuchos ou CDs, passaram pelas suas mãos. A média de jogatina diária é de 12 a 14 horas, segundo o próprio.

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos mostram que a dependência dos jogos eletrônicos é bastante similar ao uso abusivo de álcool ou o vício em chocolate. No Brasil, esses estudos começam a engatinhar. O ambulatório de psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo oferece tratamento para dependentes digitais, com foco em internet e games. De acordo com a Secretaria de Saúde de Pernambuco, o estado não possui tratamento especializado para esses casos. Mas uma pesquisa inédita, realizada com 200 alunos da UFPE que utilizaram jogos eletrônicos nos últimos 12 meses, mostrou que 42% jogaram por um período de tempo maior que o planejado.

Por isso, o Informática de hoje conta a história de Augusto. “Admito que sou viciado e sei que isso faz mal, assim como qualquer coisa em excesso”, diz. Ao ser perguntado se já tentou ou pretende parar, responde na maior franqueza: “Honestamente, não. Eu gosto disso”, afirma. A entrevista, que seria marcada para as 13h, foi adiada para 16h30. O motivo não foi trabalho. Por enquanto, Augusto está desempregado e faz bicos consertando computadores durante a semana. Uma parte do dinheiro vai para os jogos. Ele também estava estudando para prestar vestibular e ingressar em uma universidade, mas, por recomendação médica, deu uma pausa nos livros para cuidar da saúde.

No início daquela tarde, ele estava concentrado jogando Tony Hawk’s HD. Havia dormido de madrugada, às 2h, tentando zerar Dead Space 2 para Xbox 360 no modo difícil. Às 7h, acordou e começou a jogar antes mesmo do café. “Não tenho muito sono, durmo em média duas ou quatro horas por dia”, explica.

O primeiro contato com o universo dos videogames foi aos 8 anos, quando herdou um Atari 2600 do tio. Ele revela que sempre jogou bastante e isso não afetou seu desempenho na escola. “Eu tirava boas notas, porque fazia o dever de casa logo e ficava com o tempo livre. Não sou antis-social, mas saio pouco. Quando era adolescente, pratiquei taekwondo e judô. Atualmente, faço natação três vezes por semana, até por uma questão de saúde”, relata, tentando se desvencilhar do estereótipo de nerd.

Augusto lembra que, no começo, a mãe pedia para ele moderar o tempo gasto jogando. “Hoje, ela nem briga mais. O desconforto maior é quando estou com um jogo mais violento”, comenta, acrescentando que não tem predileção por algum gênero ou estilo em específico.

“Algo que me deixa bastante irritado é quando preciso dar pause para atender o telefone ou dar algum recado. Só não me aborreço se for algo programado e combinado antes, como a natação. Meu recorde foram 48 horas seguidas no Master System. Nem lembro qual foi o jogo”, conclui.

Perfil do jogador

Estudantes da graduação em psicologia da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade Católica de Pernambuco, coordenados pelo psicólogo Igor Lins Lemos, realizaram uma análise epidemiológica e sintomatológica do uso problemático de jogos eletrônicos. A pesquisa foi feita entre setembro e dezembro do ano passado e ouviu 200 estudantes da UFPE, de ambos os sexos, maiores de idade, de diversas áreas de ensino. Eles responderam nove perguntas de uma escala chamada Problem Video Game Playing (PVP). Todos tiveram contato com jogos eletrônicos nos últimos 12 meses.

A maioria dos jogadores pesquisados é homem - 68%

34,56% dos 136 homens entrevistados apresentaram uso problemático dos jogos eletrônicos

Entre as mulheres, o percentual foi de 21,88%

75,5% dos entrevistados afirmaram que precisaram continuar jogando porque perderam ou não alcançaram os resultados desejados

42% disseram que já tentaram parar de jogar, controlar ou diminuir o tempo gasto ou então jogaram por um período mais longo do que o planejado

76,5% dos participantes disseram ter feito pelo menos uma das seguintes coisas porque estavam jogando: deixar de comer, dormir tarde, passar menos tempo com amigos e família ou deixar de fazer lição de casa e trabalhos da faculdade.


Entrevista - Igor Lins Lemos

Publicação: 25/07/2012 03:00


Vida social em segundo plano

Igor Lins Lemos formou-se em psicologia em 2009 pela Universidade Católica de Pernambuco. Atualmente, atende em consultório e ministra aulas na Esuda e no Instituto Brasileiro de Gestão & Marketing (IBGM). Ele possui especialização em psicoterapia cognitiva comportamental pela UPE e estuda o universo dos jogos eletrônicos há cinco anos. Sua pesquisa de mestrado teve como tema Representações sociais da violência contida nos jogos eletrônicos. Igor possui outra pesquisa, esta de doutorado, em andamento, com o tema Um estudo da dependência de jogos eletrônicos em pacientes previamente diagnosticados com depressão. Nas horas vagas, joga Left 4 Dead, Unreal e Fifa.

“O indivíduo não controla o tempo”

Há alguma forma de medir ou determinar se uma pessoa é viciada em games?
Quanto ao uso de jogos eletrônicos, podemos falar em três fases. A primeira é o uso adaptativo, que é algo casual e corriqueiro. A segunda é o uso excessivo, que ocorre bastante na adolescência, mas não pode ser caracterizada como vício ou patologia. A terceira fase é a dependência, que se manifesta com alguns sintomas.

Que sintomas são esses?

De um modo geral, o indivíduo tem dificuldade em controlar o tempo gasto com o jogo. É muito difícil para ele interromper a atividade e ele deixa de ter uma vida com família, amigos e trabalho para jogar. Outro sintoma é uma certa irritabilidade. A pessoa fica ansiosa, com desejo de estar novamente jogando.

Nesses casos, que tipo de jogo é o preferido?

Normalmente, a dependência é para jogos online. Há uma preocupação em voltar a ficar conectado para evoluir o personagem no mundo virtual. Observamos uma frequência maior nos gêneros RPG e shooters, principalmente FPS. São games onde há formação de equipe.

Como são os estudos sobre este tipo de dependência no mundo?
Ainda é uma discussão relativamente recente, que aumentou na metade da década de 1990. Estados Unidos e Alemanha possuem centros de tratamento específicos para isso. No Brasil, o Hospital das Clínicas, em São Paulo, oferece tratamento. Mas a maioria das pesquisas realizadas no país analisa a dependência da internet e não dos jogos. Um grupo de psiquiatras está tentando colocar a dependência dos jogos eletrônicos como transtorno mental específico, em 2013, na DSM-V.

Existe alguma semelhança com a dependência de álcool?
Em ambos os casos, o dependente tem uma distorção perceptiva sobre ele mesmo. Costuma falar que vai demorar só mais cinco minutos e esse tempo nunca é o bastante para satisfazê-lo.

Como é o tratamento?
Eu trabalho com terapia cognitiva comportamental, que avalia por que o paciente acha o jogo e a internet mais interessantes do que a vida social. Os pais devem estar presentes para observar e regular os filhos. Já vi casos de crianças de seis anos com jogos para maiores de idade. Também tentamos praticar o tempo oposto. É uma inversão do tempo: o que era gasto socialmente, fica para os games e vice-versa. Deixar lembretes perto do computador, alertando sobre o uso excessivo, também é eficaz. A motivação do paciente deve ser bem trabalhada e podemos buscar juntos formas alternativas de uso das tecnologias.

Quais as principais dificuldades do tratamento?
Dificilmente a pessoa toma a decisão de vir sozinha. Alguém precisa convencê-la da importância da terapia. É comum os amigos falarem que é besteira procurar um psicólogo para falar sobre jogos e isso atrapalha. Muitas vezes, o paciente chega com TOC, depressão e outros tipos de transtornos. É preciso entender o que é causa e o que é consequência. Com um tratamento eficaz, geralmente a pessoa recebe alta com seis meses, sem necessidade de medicamentos.

Serviço
Consultório: Igor Lins
Endereço: Rua Demócrito Souza Filho, 335, sala 402. Empresarial Green Tower. Bairro da Madalena, Recife.
E-mail: igorlemos87@hotmail.com


Problema não está no jogo


Publicação: 25/07/2012 03:00

Fred: %u201CAs empresas não podem ser responsabilizadas%u201D (BLENDA SOUTO MAIOR/DP/D.A PRESS)
Fred: "As empresas não podem ser responsabilizadas"

Left 4 Dead, Batman Arkham City e NBA 2k12 são apenas alguns dos jogos que o relações públicas Lucas Cisneiros, 25 anos, curte. Seus games favoritos pertencem aos gêneros esportes, ação com first person shooter (FPS) e RPG. Curiosamente, os mesmos estilos que o psicólogo Igor Lins Lemos apontou como predominantes entre o público que desenvolveu dependência de jogos eletrônicos. Só que a jogatina do rapaz dificilmente passa de uma hora por dia. Isso nos leva a uma pergunta: existe, de fato, um game viciante?

“Jogo o suficiente para me distrair e tenho certeza que não prejudico minha vida social. Às vezes, minha namorada e meus amigos se juntam para jogar comigo. Pratico esportes e diminuo ainda mais o ritmo nos finais de semana. Eu também acho legal pesquisar placa de vídeo e incrementar a máquina”, explica Lucas Cisneiros.

Na opinião do presidente da Associação Brasileira dos Desenvolvedores de Games (Abragames), Fred Vasconcelos, as empresas não podem ser responsabilizadas. “Todo exagero é nocivo em qualquer coisa na vida. Um funcionário meu que tenho muita consideração deixou de ir ao meu casamento porque tinha um encontro amoroso em World of Warcraft. O vício é uma exceção à regra. O problema não está no jogo e sim na pessoa. As empresas preferem o cara que joga duas horas durante seis meses ao que passa o sábado e o domingo inteiros conectado”, afirma ele.

Fred ressalta a importância dos games para várias indústrias, saindo do escopo de entretenimento e sendo utilizados também para propaganda, educação e até fins medicinais. “O jogo traz o lúdico, que é algo que precisamos no nosso dia a dia. Mas se você passa metade da semana jogando, está deixando de fazer alguma coisa. Essa corda, uma hora, vai arrebentar para o lado social, familiar, financeiro ou da saúde. Minha inquietação é outra pergunta: será que a vida está tão chata assim?”, questiona.


Publicado no Diario de Pernambuco em 25/07/12, p.  F1 e F2

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Concorrência entre as teles ameaçada

Micheline Batista
michelinebatista.pe@dabr.com.br


Quase 14 anos após as privatizações, três companhias dominam 90,04% do mercado da telefonia fixa

Imagem: ISABELLA ALVES/DP

Em um momento, você está contratando os serviços de três empresas diferentes: uma de telefonia fixa, outra de telefonia móvel e uma terceira de banda larga. Em outro, as três empresas viram uma só. Foi o que aconteceu na semana passada, quando a Vivo anunciou que concluiu o processo de integração com a Telefônica, incorporando também a TVA. Agora, a Telefônica integra a lista das marcas que foram engolidas por outras, juntamente com a Brasil Telecom (engolida pela Oi), a Vésper (engolida pela Embratel), Embratel (engolida pela Claro), Intelig (engolida pela TIM), entre tantas outras.

Esse movimento de concentração na telefonia não é recente, mas fica cada vez mais evidente que o consumidor está condenado a ficar na mão de poucas empresas. Pouquíssimas. Na privatização das teles, em 1998, foram vendidas 12 holdings, quatro delas de telefonia fixa. Depois vieram as empresas-espelho (GVT, Vésper e Intelig) e a licitação de novas bandas – nove no total, todas adquiridas sempre pelos mesmos jogadores.


A promessa da privatização – e depois das licitações das novas bandas – era de competição, levando à derrubada dos preços. Hoje, quase 14 anos depois, três companhias dominam 90,04% do mercado da telefonia fixa (Oi, Vivo/Telefônica e Claro/Embratel). No segmento móvel, as quatro maiores (Vivo, Claro, TIM e Oi) concentram 99,68% das linhas. Procurada pela reportagem, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) não disponibilizou um porta-voz para comentar o assunto.


“O que mais nos choca é que a privatização era para trazer competição, mas o que a gente vê é cada vez mais concentração. Não temos concorrência na telefonia fixa e as celulares são acionistas entre si, o que deixa o consumidor numa situação bastante complicada”, observa a coordenadora jurídica da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Pro Teste), Maria Inês Dolci. Ela lembra que as tarifas praticadas no Brasil estão entre as mais altas do mundo. 


Mais de 80% dos municípios brasileiros contam apenas com uma operadora de telefonia fixa. No segmento móvel, mais da metade deles possui uma, no máximo duas empresas operando. Cadê a competição? Será que o tamanho do mercado brasileiro não comporta mais do que os quatro grandes grupos que estão aí, que, como se não bastasse, concentram suas operações nas localidades mais lucrativas, deixando as mais remotas desassistidas?


Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, não vê problemas na telefonia móvel. Para ele, a integração nacional das quatro operadoras trouxe um cenário de “competição acirrada” e provocou a queda de preços, principalmente nas ligações intrarrede. “O problema está na telefonia fixa, que inclui banda larga e TV por assinatura, onde não temos nenhum grupo com presença nacional. O ideal seria que esses grupos se expandissem também no fixo. Não digo para todos os municípios, mas pelo menos para aqueles com mais de 100 mil habitantes.”


Parece ser essa a tendência. A Vivo já lançou telefonia fixa e um combo com telefonia fixa, móvel, internet e Wi-Fi, antes oferecidos apenas no estado de São Paulo, em 140 cidades em oito estados (RJ, RS, MG, ES, BA, SC, GO e PR). Na semana passada, anunciou que chegaria com esses novos produtos ao Nordeste ainda este ano. 

Banda larga, a "redenção"

Um dos caminhos apontados por especialistas para aumentar a competição na telefonia, pelo menos no segmento fixo, é a internet banda larga. Se antes a telefonia fixa não era considerado um negócio lucrativo, agora passa a ser. O número de acessos cresceu 23% em 2011, alcançando a marca dos 18,2 milhões. A oportunidade é ainda maior no Nordeste, região que cresceu 38%, bem acima da média nacional. 

“Um passo importante foi dado com a aprovação da lei da TV a cabo, porque a gente volta a ter novas licenças. É um incentivo a mais para a aumentar a rede. Empresas como Embratel/NET e GVT estão com apetite e agora haverá um esforço da Vivo/Telefônica para montar uma rede fora de São Paulo”, comenta o presidente da consultoria Teleco, Eduardo Tude.


O consultor destaca que, atualmente, a única opção fora das capitais é a banda larga da Oi, ainda assim com velocidade muito baixa. Ou então as redes móveis 3G, com velocidade também limitada. “O que a gente precisa é isso: de empresas investindo na telefonia fixa para aumentar a infarestutura de dados. No Nordeste, espera-se uma entrada mais forte da GVT e da Embratel/NET”, diz Tude.


Na telefonia móvel, a boa notícia é que um quinto competidor na telefonia móvel está a caminho: a Nextel, que antes operava apenas no Serviço Móvel Especializado (SME), adquiriu licenças para operar também no Serviço Móvel Pessoal (SMP) e deve começar a oferecer o serviço no segundo semestre deste ano.


Em relação à chamada convergência, parece ser um caminho em volta. Pesquisas indicam que a contratação de pacotes (também chamados de combos) com telefonia fixa, móvel, banda larga e TV por assinatura traz uma economia entre 25% e 30% quando comparamos com a compra individual desses serviços. (M.B.) 


Publicado no Diario de Pernambuco em 22/04/12.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O caminho para o crescimento


MICHELINE BATISTA
michelinebatista.pe@dabr.com.br

Empresas de tecnologia montam base fora do estado em busca de um mercado mais sólido e faturamento maior
Imagem: LAIS TELLES/ESP. DP/D.A PRESS


Sair ou ficar no Recife? Não são poucas as empresas pernambucanas de tecnologia da informação (TI) que vivem ou viveram esse dilema. Sair significaria alcançar novos (e maiores) mercados; ficar, pode virar sinônimo de limitação geográfica e estagnação. Algumas encontraram uma saída, uma receita para crescer que não exclui uma coisa nem outra: a abertura de uma filial em São Paulo. A base tecnológica continua no Recife, enquanto que o braço comercial explora todo o potencial do Centro-Sul do país.

A NeuroTech, empresa especializada em inteligência artificial para gestão de crédito e risco baseada no Porto Digital, conseguiu aumentar seu faturamento em 180% em 2011, primeiro ano de funcionamento de sua filial em São Paulo. “Se a gente soubesse que haveria um aumento no faturamento tão alto, já teríamos aberto essa filial há mais tempo”, diz o sócio e diretor de produto da NeuroTech, Rodrigo Cunha.

Criada em 2000 como uma unidade de negócios do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R.), a NeuroTech fez seu spin off (saída da incubação) em 2003 e até hoje é alimentada exclusivamente pelo capital dos cinco sócios. Em 2008, eles compraram a participação societária do C.E.S.A.R. “São nove anos pedalando por conta própria. Não existe fórmula mágica para crescer, mas posso dizer que agora encontramos o caminho do crescimento”, comenta Rodrigo.

Até lá, o percurso foi longo. As empresas pernambucanas não foram nada receptivas às soluções da NeuroTech e o jeito foi rumar para São Paulo, em busca das grandes corporações do varejo, bancos e financeiras. Até o ano passado, o atendimento a esses clientes na capital paulista era feito através de um representante comercial em um escritório virtual.

“A gente achava que viajar uma vez por semana para São Paulo era suficiente. Mas o cliente quer sempre soluções imediatas e a NeuroTech não tinha pessoal técnico por lá. Foi quando resolvemos montar a filial e pulamos de um faturamento de R$ 5 milhões, em 2010, para R$ 14 milhões em 2011. Um crescimento considerável”, conta o diretor de produto.
Em 2012, a empresa prevê um crescimento de 43%, atingindo R$ 20 milhões. O contigente de empregados dobrou de tamanho, passando de 50 pessoas, em 2010, para 100 profissionais atualmente, 20 deles baseados em São Paulo. Na carteira, são cerca de 60 clientes diretos e quase cinco mil indiretos. “A lição que aprendemos foi: é preciso estar sempre perto do cliente”.

 O diretor de inovação do Porto Digital, Guilherme Calheiros, acredita que esse é o caminho certo. O próprio parque tecnológico, aliás, está inaugurando um escritório na Avenida Paulista em abril. Um investimento de R$ 170 mil nos próximos dois anos, para uso coletivo das empresas embarcadas. “O nosso espaço geográfico é excelente para produzir inovação, mas todos nós sabemos que o mercado não está aqui. Cerca de 25% do que as empresas do Porto Digital já faturam estão no Sudeste”, pontua Guilherme.


Aposta no Centro-Sul


Outro caso de sucesso no Porto Digital, também originada no C.E.S.A.R. e na mesma época da NeuroTech, em 2000, a Tempest Security Intelligence descobriu bem antes o caminho da roça, ou melhor, do crescimento. A empresa especializada em inteligência em segurança de informação possui escritório em São Paulo desde 2004, embora o primeiro negócio só tenha sido fechado quase um ano depois.

“A gente não entendia nada de São Paulo, então contratamos uma empresa para nos reposicionar. Até a marca tivemos que mudar”, recorda o sócio-diretor Evandro Hora. Depois de um ano em São Paulo, o faturamento pulou de R$ 600 mil para R$ 2,6 milhões. Três anos depois, a filial paulista já respondia por 50% do faturamento. Hoje são cerca de 70 clientes.

A fórmula é a mesma. Mantém-se a base tecnológica em Pernambuco e a parte comercial no Centro-Sul. No caso da Tempest, são 70 colaboradores no Recife e 20 em São Paulo, incluindo alguns técnicos que conectam a rede dos clientes à da empresa para que o pessoal do Recife possa trabalhar. “Nossa mão de obra está em Pernambuco, mas nosso mercado está lá. Hoje já temos um nome, mas teria sido impossível crescer sem um escritório em São Paulo”, conclui Evandro. (M.B.)


Sem limitação geográfica

A experiência das empresas mostra que a área geográfica do Porto Digital, no Bairro do Recife, não pode se tornar um limitador do crescimento. Inclusive porque existem iniciativas em TI bem-sucedidas fora do Recife Antigo. Caso da E.life, especializada em monitoração de mídias sociais e sediada em um empresarial localizado no bairro do Espinheiro. Assim que a empresa foi fundada, em 2004, os sócios rumaram para São Paulo, mas o sucesso não veio na mesma velocidade.

Foram dois anos “batendo de porta em porta”. “É muito difícil vender um negócio novo. Só conseguimos conquistar os primeiros clientes em 2006, duas empresas que apostaram na ideia de monitorar o consumidor pelas redes sociais. Hoje temos cerca de 50 clientes no Brasil e 14 no exterior, em Portugal, Espanha e México”, depõe o diretor de tecnologia da E.life, Jairson Vitorino.

Atualmente, a E.life se coloca como líder em monitoração, análise da mídia gerada pelo consumidor e gestão de relacionamento em mídias sociais na América Latina e Portugal. Deu tão certo que a pequena empresa acabou resultando em um pequeno que abriga em seu guarda-chuva, além da E.life Monitor e da E.life Social CRM, que faz gestão do relacionamento em redes sociais, a Social Agency (agência de marketing on-line); a Landscape (especializada em realidade aumentada); e a Mobi.life, que oferece produtos para força de vendas. Essas duas últimas também estão iniciando suas atividades em São Paulo.

Como a NeuroTech, a E.life também é fruto de um esforço financeiro dos próprios sócios. “Nunca quisemos um investidor, nem privado nem público. No Recife há várias empresas recebendo muito dinheiro público o que, às vezes, ao invés de animar, anestesia”, alfineta Jairson. A E.life pulou de um faturamento de R$ 3 milhões, em 2009, para R$ 5 milhões em 2010 e R$ 10 milhões em 2011. É uma mostra de que, se o Recife não é o limite, São Paulo também não pode ser. (M.B.)


Perfil das empresas

e.Life

O que faz: Monitoração, análise e gestão de relacionamento em mídias sociais
Ano de fundação: 2004
Faturamento em 2011: R$ 10 milhões
Crescimento (2011/2010): 100%
Mais informações: www.elife.com.br

NeuroTech

O que faz: Soluções para decisões em crédito, cobrança e fraude
Ano de fundação: 2000
Faturamento em 2011: R$ 14 milhões
Crescimento (2011/2010): 180%
Mais informações: www.neurotech.com.br

Tempest

O que faz: Soluções de software e serviços em segurança da informação
Ano de fundação: 2000
Faturamento em 2011: não informado
Crescimento (2011/2010): 87%
Mais informações: www.tempest.com.br

Fonte: Empresas

Publicado no Diario de Pernambuco em 25/03/12.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Intelectual da crise na luta

Imagem: WHOAMI-WHOAREYOU.BLOGSPOT/REPRODUÇÃO DA INTERNET


Paulo Carvalho

O pensamento e o itinerário da filósofa política alemã Hannah Arendt é destado em obra do professor brasileiro Eduardo Jardim
 
 
Hannah Arendt (1906 - 1975) foi uma mulher em tempos sombrios e uma intelectual do recomeço. É de Arendt - filósofa política alemã, de origem judaica, refugiada na França e posteriormente nos Estados Unidos - umas das primeiras respostas à devastação da Segunda Guerra, Origens do totalitarismo (publicado em 1951, com edição definitiva em 1966). A obra é um dos testemunhos filosóficos mais ricos sobre o fenômeno político mais marcante do século 20, assim como um forte sopro intelectual dirigido contra um “mundo” em ruína, paralisado pela banalidade do mal em sua máxima expressão.

 O recém lançado Hannah Arendt - Pensadora da crise e de um novo início (Civilização Brasileira, 160 páginas, R$ 29,90), do professor de Filosofia da PUC-Rio, Eduardo Jardim, oferece uma interessante introdução a obras fundamentais do pensamento de Arendt, abordando seu itinerário intelectual (e pessoal) em três seções. A primeira delas volta-se às pesquisas dos anos 1940, sobre a origens do totalitarismo, em que Arendt propõe uma leitura diferente da corrente em sua época. Para a autora do já citado Origens do totalitarismo, os regimes de Hitler e Stalin não eram formas radicais de autoritarismos ou de ditaduras, mas significaram a ruptura com formas políticas tradicionais e a expressão máxima da falência da autoridade política em curso na modernidade.

 Nas seções seguintes, Jardim ocupa-se da teoria política e da reflexão sobre a vida do espírito, que vincula as atividades de pensar, querer e julgar. “Ao apresentar a visão de Hannah Arendt da política, segui sua sugestão de começar pelo questionamento do preconceito atual contra tudo que é de natureza pública e plural”, sugere Jardim. A teoria da ação de Arendt, exposta em A condição humana (1958), influenciaria pensadores tão distintos como Jürgen Habermas e Giorgio Agamben, tomando a ação como uma atividade que não se confunde com nenhuma outra (e politicamente antípoda da “produção” fabril). A ação supõe a natureza plural do agir, argumentaria Arendt.

Por fim, a leitura de Jardim volta-se a temas presentes em A vida do espírito e Lições sobra a filosofia política de Kant, publicados após a morte da filósofa. Trata-se de uma reflexão (originada no julgamento de Eichmann, em Jerusalém) sobre a incapacidade de pensar e julgar, e sobre o problema do mal.

A pertinente obra de Jardim confirma a certeza que o século desta pensadora foi um século de irreflexão e que sua obra escova a contrapelo as repetições de “verdades” vazias, triviais, assim como a racionalidade dos homens-burocratas com pouca capacidade de pensar sobre o que, afinal, estavam fazendo neste “mundo”.
 
 
Entrevista >> Eduardo Jardim

Imagem: GLAUCIA VILLAS BOAS/CAFEHISTORIA.NING.COM

“Poder é invenção do novo”

Arendt afirma que “aquilo que o sistema totalitário precisa para guiar a conduta de seus súditos é um preparo para que cada um se ajuste igualmente bem ao papel de carrasco e de vítima”. Esse preparo foi feito pelas ideologias. Pergunto: Traços dessa nova noção de lei (que naturaliza os processos históricos) introduzida pelos regimes totalitários ainda marcam as democracias nacionais contemporâneas? De que forma?
A atualidade do pensamento de Hannah Arendt não está tanto no conteúdo dos assuntos que tratou, historicamente datados, mas muito mais no seu modo de pensar. “Pensar sem corrimão” – esse era o lema da filósofa. Isto significa: indagar a respeito do significado de tudo, sem depender de noções aceitas sem discussão. “Ir às coisas mesmas, sem muita teoria!” – foi o que ensinou Hannah Arendt. Esta ideia continua “atual”.

Para responder pontualmente sua pergunta: a avaliação da importância das ideologias no nos regimes totalitários variou ao longo da obra de Hannah Arendt. Em Origens do totalitarismo, ela afirmou que uma espécie de “filosofia da história” desempenhou um papel importante na doutrinação dos cidadãos. Isto teria acontecido tanto na União Soviética, com uma determinada interpretação do materialismo histórico, quanto no nazismo e seu evolucionismo racista.

Anos mais tarde, a partir do momento do julgamento de Eichmann, em Jerusalém, Hannah Arendt observou que os criminosos nazistas, em geral, não eram ideologicamente motivados. Eles agiam mais por obediência, como bons funcionários, sem nunca discutir as ordens que recebiam. Esta foi a razão de Hannah Arendt falar em “banalidade do mal”.

Segundo a leitura de Arendt, a solidão é uma noção fundamental para compreender o totalitarismo. Como o pensamento político de hoje trabalha a noção de solidão?

A solidão é uma experiência de todo homem. Na velhice, na doença e em situações de desamparo, cada um de nós pode experimentar a solidão. A solidão não significa estar a sós. Pode-se estar no meio da multidão e viver em solidão. A solidão tem muito mais a ver com perder a companhia até de si mesmo. A discussão do tema da solidão surgiu para Hannah Arendt em sua indagação sobre qual teria sido a experiência humana explorada politicamente pelos movimentos totalitários. Sua tese é de que a solidão foi essa experiência. Apenas os regimes totalitários exploraram politicamente a solidão. Em Origens do totalitarismo, Hannah Arendt afirmou que muitos traços totalitários continuam presentes nas sociedades contemporâneas. Isto não significa que elas sejam totalitárias. Não seria impossível um retorno do totalitarismo, mas isso exigiria um investimento político nesses fatores que favorecem sua eclosão, como a solidão.

Vivemos um momento de falência da autoridade política?

A falência da autoridade política é um aspecto de uma crise ampla que atravessa a Era Moderna e marca seu fim. Trata-se de uma crise da tradição, da religião e da autoridade política. Esta crise significa a perda da estabilidade do mundo. Já não temos confiança nas crenças tradicionais e tampouco obedecemos aos antigos padrões de comportamento. Esta ausência de sentido caracterizou o modo de ser das sociedades de massa, surgidas no século 20, que foram mobilizadas pelos movimentos totalitários. Na contemporaneidade, sociedades reguladas por princípios estáveis foram substituídas por novas, que funcionam muito mais como sistemas que se autopreservam. A crise da autoridade é vista de dois modos por Hannah Arendt. Por um lado, ela conformou o ambiente político em que surgiram os totalitarismos. Por outro lado, já que não estamos mais presos aos padrões tradicionais, podemos nos sentir livres para agir com mais espontaneidade. Hannah Arendt apostou nesta última possibilidade.

O que é o “mal absoluto” ou a “banalidade do mal”?

Mal absoluto ou mal radical é um conceito presente na filosofia de Kant, utilizado na primeira fase da obra de Hannah Arendt para dar conta do que aconteceu no totalitarismo. Banalidade do mal foi o assunto de Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém, quando ela mostrou que os crimes cometidos pelos nazistas não tinham uma motivação profunda, mas apenas banal. Em uma carta ao amigo Gehrardt Scholem, Hannah Arendt afirmou: “Atualmente, minha opinião é de que o mal nunca é ‘radical’, que ele é apenas extremo e que não possui nem profundidade nem dimensão demoníaca... Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical.”

Arendt, que opunha os conceitos de poder e violência, tem uma noção de poder muito distinta da de Foucault. As duas reflexões, contudo, são complementares, de acordo com a sugestão de Agamben (para o italiano, Arendt não teria entrevisto a força do biopoder e suas relações com o estado democrático, enquanto Foucault teria passado ao largo do totalitarismo alemão). Enxerga essa complementaridade entre as leituras de Foucault e de Arendt?
A proximidade dos pensamentos de Hannah Arendt e de Foucault tem mais a ver com o fato de que os dois autores abordaram o tema da crise do mundo contemporâneo. Foucault viu essa crise no fim do homem como o nexo das sociedades modernas. Com isto, elas chegam atualmente ao seu fim. Este foi o assunto de As palavras e as coisas. Neste contexto, opera-se o controle político da vida. Já Hannah Arendt examinou a crise ampla da sociedade moderna e centrou sua atenção no aparecimento dos totalitarismos.
 
Para Hannah Arendt, realmente, poder e violência são incompatíveis. Onde começa a violência, cessa o poder. Poder é espontaneidade, é pluralidade, é invenção do novo, é a eloquência de múltiplas vozes. A violência é muda, tem um caráter instrumental, depende de determinados recursos. Na visão de Hannah Arendt, o desafio das revoluções modernas foi de criar um novo estado de coisas sem apelar para a violência. Elas frequentemente fracassaram neste aspecto.
 
Matéria publicada no Diario de Pernambuco em 05/02/12.